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N-SPT vs N60: Qual usar no projeto de fundação?

13 de abril de 2026·11 min de leitura

N-SPT e N60: dois números, um ensaio

Quem trabalha com projetos de fundações no Brasil convive diariamente com o N-SPT — o número de golpes do ensaio de penetração padrão registrado a cada metro de sondagem. Mas à medida que laudos internacionais, softwares geotécnicos e correlações para liquefação chegam ao mercado nacional, outro número aparece com frequência crescente: o N60. A confusão entre os dois é uma das fontes mais comuns de erros silenciosos no dimensionamento de fundações.

Este artigo explica a diferença fundamental entre N-SPT e N60, como os fatores de correção de energia funcionam na prática, qual valor deve ser usado em cada tipo de análise e o que a prática brasileira efetivamente adota — com números reais para guiar sua decisão.

O N-SPT: o que está sendo medido de fato

O N-SPT é o número de golpes do martelo padrão (65 kg, queda livre de 75 cm) necessário para cravar o amostrador bipartido nos 30 cm finais de uma cravação em três etapas de 15 cm. Os golpes da primeira etapa (assentamento) são descartados. O resultado é um índice de resistência à penetração dinâmica do solo em determinada profundidade.

O problema começa aqui: o martelo "cai livremente" apenas em teoria. Na prática, a energia efetivamente transferida ao amostrador depende do sistema de percussão usado — e esse sistema varia enormemente entre equipamentos, empresas e países. Os principais sistemas são:

  • Corda-catracão (rope and cathead): O sistema mais comum no Brasil. O martelo é içado por uma corda enrolada em torno de um catracão e solto. A energia transferida depende do número de voltas da corda, do diâmetro do catracão e da habilidade do operador. Eficiência típica: 55–72% da energia potencial teórica.
  • Safety hammer automático: Martelo içado e liberado mecanicamente. Mais consistente, menos dependente do operador. Eficiência típica: 70–85%.
  • Donut hammer: Sistema de anel, raro no Brasil, mais comum nos EUA. Eficiência típica: 45–60%.

A mesma areia medianamente compacta pode registrar N-SPT = 18 com corda-catracão e N-SPT = 14 com safety hammer automático — uma diferença de 22% que, sem correção, pode resultar em subdimensionamento ou superdimensionamento de fundações.

O N60: normalizando a energia transferida

O N60 é o N-SPT corrigido para corresponder a uma eficiência de transferência de energia de exatamente 60% em relação à energia potencial nominal do martelo (475 J). A fórmula é direta:

N60 = N-SPT × (ER / 60)

Onde ER é a eficiência real do sistema de percussão em uso, medida em percentual. Exemplos práticos:

  • Corda-catracão com ER = 65%: N60 = N-SPT × (65/60) = N-SPT × 1,08
  • Safety hammer com ER = 80%: N60 = N-SPT × (80/60) = N-SPT × 1,33
  • Donut hammer com ER = 50%: N60 = N-SPT × (50/60) = N-SPT × 0,83

O valor de referência de 60% foi escolhido porque era aproximadamente a mediana das eficiências dos equipamentos norte-americanos usados para desenvolver as principais correlações empíricas entre N-SPT e parâmetros geotécnicos nas décadas de 1960–1980 (Seed, Idriss, Skempton, Robertson). Ao normalizar para 60%, o N60 torna-se comparável entre equipamentos diferentes e entre campanhas realizadas em países distintos.

Fatores de correção de energia na prática

A correção completa do N-SPT para N60 envolve, além da eficiência do martelo (CE), outros fatores que refinam o resultado:

  • CB — fator de diâmetro do furo: 1,0 para diâmetros de 65–115 mm (padrão NBR). Aumenta para 1,05–1,15 em furos maiores.
  • CR — fator de comprimento das hastes: Hastes curtas (<3 m) reduzem a energia transmitida. Para hastes de 3–4 m: CR = 0,75; 4–6 m: CR = 0,85; 6–10 m: CR = 0,95; >10 m: CR = 1,0.
  • CS — fator do amostrador: 1,0 para amostrador padrão sem liner interno. Aumenta para 1,1–1,3 quando o liner é removido (prática proibida pela NBR 6484:2020, mas ainda observada).

A fórmula completa fica:

N60 = N-SPT × CE × CB × CR × CS × (ER / 60)

Na prática brasileira, CB e CS frequentemente valem 1,0 e CR só é significativo nos primeiros metros. O fator dominante é CE × ER.

Prática brasileira vs. prática internacional

Aqui está o ponto de tensão que mais causa confusão: a prática geotécnica brasileira consagrada utiliza o N-SPT bruto — sem correção de energia — nas correlações empíricas nacionais (Décourt-Quaresma, Aoki-Velloso, Teixeira, tensão admissível de Terzaghi-Peck adaptada). Isso ocorre porque essas correlações foram desenvolvidas com dados coletados com equipamentos brasileiros de corda-catracão, com eficiências típicas de 60–72%. A correção já está, de forma implícita, "embutida" nas constantes empíricas.

Já as correlações internacionais — especialmente as relacionadas a análise de liquefação (Seed & Idriss, Robertson & Wride, Youd et al. 2001, Idriss & Boulanger 2008) — foram desenvolvidas com N60 como variável de entrada. Aplicar N-SPT bruto nessas fórmulas, sem a correção de energia, produz resultados incorretos e pode subestimar seriamente o potencial de liquefação.

A tabela a seguir resume a regra prática:

  • Capacidade de carga de estacas (Aoki-Velloso, Décourt-Quaresma): usar N-SPT bruto com os coeficientes das correlações brasileiras originais.
  • Tensão admissível de sapatas e recalques (correlações brasileiras): usar N-SPT bruto.
  • Análise de liquefação (correlações Seed-Idriss, Robertson): usar N60, com correção adicional para tensão de confinamento [(N1)60].
  • Comparação entre campanhas com equipamentos diferentes: converter para N60 antes de qualquer análise comparativa.
  • Importação de dados ou laudos internacionais: verificar se o valor reportado já é N60 ou N-SPT bruto antes de aplicar correlações brasileiras.

O (N1)60: a correção adicional para tensão de confinamento

Em solos granulares, o N-SPT e o N60 aumentam naturalmente com a profundidade, mesmo que a compacidade relativa do solo seja constante — simplesmente porque a maior tensão de confinamento dificulta a penetração do amostrador. Para análises que envolvem comparação de compacidade relativa entre camadas a diferentes profundidades (como liquefação), aplica-se uma segunda correção:

(N1)60 = N60 × CN

Onde CN é o fator de correção de tensão de confinamento, calculado como:

CN = (Pa / σ'v)^0,5 (limitado a CN ≤ 2,0)

Sendo Pa = 100 kPa (pressão atmosférica) e σ'v a tensão vertical efetiva no ponto. Na prática, CN é maior que 1 nos primeiros metros (baixa tensão de confinamento) e menor que 1 em profundidades maiores. O (N1)60 é o índice de resistência normalizado para tensão de confinamento padrão de 100 kPa, comparável independente da profundidade.

Exemplo numérico: N-SPT de campo para N60 e (N1)60

Considere um furo SPT com corda-catracão (ER = 65%), hastes de 8 m (CR = 0,95), diâmetro padrão (CB = 1,0), amostrador padrão com liner (CS = 1,0). A 6 m de profundidade, em areia, σ'v = 72 kPa e N-SPT = 22.

  • CE = ER/60 = 65/60 = 1,083
  • N60 = 22 × 1,083 × 1,0 × 0,95 × 1,0 = 22,6 ≈ 23
  • CN = (100/72)^0,5 = 1,178
  • (N1)60 = 23 × 1,178 = 27,1 ≈ 27

Para uma análise de liquefação com a metodologia de Robertson & Wride, o valor a ser usado é (N1)60 = 27. Para o cálculo da capacidade de carga de uma estaca pelo método Aoki-Velloso, o valor a ser usado permanece N-SPT = 22.

Quando a diferença realmente importa

Na maioria dos projetos de fundações convencionais no Brasil — sapatas, blocos sobre estacas, radiers — a diferença entre N-SPT e N60 tem impacto prático pequeno, porque as correlações usadas foram calibradas com o mesmo tipo de equipamento. O risco real aparece em três situações:

  • Obras em zonas sísmicas ou de liquefação potencial: A análise requer (N1)60 obrigatoriamente. Usar N-SPT bruto pode subestimar o risco em 20–40%.
  • Projetos com dados de campanhas diferentes: Se parte dos dados veio de equipamento A (corda-catracão, ER=62%) e parte de equipamento B (safety hammer, ER=80%), comparar os N-SPT brutos induz erros sistemáticos. A normalização para N60 é mandatória.
  • Aplicação de software geotécnico internacional: Plataformas como GeoStudio, PLAXIS e RS2 pedem N60 como entrada padrão. Inserir N-SPT bruto sem conversão produz resultados incorretos silenciosamente.

O que a NBR 6484:2020 diz sobre energia e N60

A versão 2020 da norma brasileira de sondagem SPT inclui, pela primeira vez, referência à ASTM D4633 (medição de energia no SPT) como documento normativo. Isso sinaliza que a medição de ER e o reporte de N60 são práticas esperadas em situações que exijam comparabilidade entre equipamentos. No entanto, a norma não torna obrigatório o reporte de N60 nos boletins de sondagem de uso geral — o N-SPT bruto permanece o valor registrado e entregue.

O Sondar+ registra o N-SPT conforme a NBR 6484:2020 e oferece a calculadora de N60 para conversão quando necessário, mantendo a rastreabilidade entre o dado bruto de campo e o valor normalizado usado em análises específicas.

Conclusão

A resposta para "qual usar no projeto de fundação?" depende do tipo de análise. Para correlações empíricas brasileiras de capacidade de carga e tensão admissível, use o N-SPT bruto — exatamente como vem do boletim. Para análises de liquefação, comparação entre equipamentos e aplicação de correlações internacionais, converta para N60 (e (N1)60 quando necessário). O erro mais perigoso é não saber qual dos dois um valor representa — especialmente em dados de origem internacional ou em softwares que não deixam isso explícito.

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