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Calculadora Aoki-Velloso: Como calcular capacidade de carga de estacas

13 de abril de 2026·12 min de leitura

Por que o método Aoki-Velloso domina o dimensionamento de estacas no Brasil

Desenvolvido por Nelson Aoki e Dario Velloso em 1975 e aperfeiçoado por Aoki e Netto em 1985, o método Aoki-Velloso é o procedimento de previsão de capacidade de carga de estacas mais utilizado no Brasil. Sua adoção massiva tem razões concretas: ele usa diretamente os dados do boletim de sondagem SPT — sem necessidade de ensaios complementares — e produz resultados amplamente calibrados com provas de carga executadas em solos brasileiros ao longo de décadas.

Este artigo explica as fórmulas do método, os parâmetros necessários, como montar a planilha de cálculo camada por camada e como interpretar o resultado. Ao final, apresentamos um exemplo resolvido com dados reais de sondagem e comparamos brevemente com o método Décourt-Quaresma.

Se preferir calcular diretamente sem construir a planilha, use a calculadora Aoki-Velloso do Sondar+ — gratuita e com todos os parâmetros de solo e tipo de estaca pré-carregados.

As fórmulas fundamentais

O método Aoki-Velloso decompõe a resistência da estaca em dois componentes: resistência de ponta (Qp) e resistência lateral por atrito ao longo do fuste (Qs). A capacidade admissível total é a soma dos dois dividida pelo fator de segurança global.

Resistência de ponta — Qp

A resistência de ponta é calculada na camada de solo na cota da ponta da estaca:

Qp = Ap × (K × Np) / F1

  • Ap — área da seção transversal da ponta da estaca (m²)
  • K — coeficiente de resistência do solo na ponta (kPa), função do tipo de solo
  • Np — valor médio do N-SPT nas três amostras centradas na ponta (1 m acima, na cota e 1 m abaixo da ponta)
  • F1 — fator de segurança de ponta, função do tipo de estaca

Resistência lateral — Qs

A resistência lateral é calculada integrando-se a contribuição de cada camada de solo ao longo do fuste:

Qs = Σ [U × ΔL × (α × K × Ni) / F2]

  • U — perímetro da seção transversal da estaca (m)
  • ΔL — espessura de cada camada (m)
  • α — coeficiente de atrito lateral, função do tipo de solo
  • K — coeficiente de resistência do solo da camada (kPa)
  • Ni — N-SPT médio na camada
  • F2 — fator de segurança lateral, função do tipo de estaca

Carga admissível total

Qt = Qp + Qs

A NBR 6122:2022 recomenda verificar essa carga admissível contra um fator de segurança global mínimo de 2,0 em relação à carga de ruptura, além de checar a condição por recalque admissível.

Tabela de parâmetros K e α por tipo de solo

Os coeficientes K e α foram determinados por Aoki e Velloso a partir de correlações com ensaios de cone (CPT) e provas de carga em solos brasileiros. Os valores a seguir são os da revisão de 1985:

  • Areia: K = 1.000 kPa · α = 0,014
  • Areia siltosa: K = 800 kPa · α = 0,018
  • Areia argilosa: K = 700 kPa · α = 0,021
  • Silte: K = 600 kPa · α = 0,022
  • Silte argiloso: K = 500 kPa · α = 0,029
  • Argila siltosa: K = 400 kPa · α = 0,033
  • Argila: K = 300 kPa · α = 0,040

Para solos mistos ou de difícil classificação, adota-se o par K/α do tipo de solo predominante identificado no boletim de sondagem. Em solos orgânicos ou de comportamento muito distinto, o método pode não ser aplicável sem calibração local.

Fatores F1 e F2 por tipo de estaca

Os fatores de segurança diferenciados entre ponta e fuste refletem a diferença de mobilização de resistência: a resistência lateral é mobilizada com recalques muito menores do que a resistência de ponta. Os valores da revisão Aoki & Netto (1985), recomendados pela NBR 6122:2022, são:

  • Estaca escavada (trado mecânico): F1 = 3,5 · F2 = 7,0
  • Estaca pré-moldada de concreto: F1 = 2,5 · F2 = 5,0
  • Estaca Franki: F1 = 2,0 · F2 = 4,0
  • Estaca metálica (perfil): F1 = 2,5 · F2 = 5,0
  • Estaca hélice contínua monitorada: F1 = 3,0 · F2 = 6,0
  • Estaca raiz: F1 = 2,0 · F2 = 4,0
  • Estaca escavada com lama bentonítica: F1 = 3,5 · F2 = 7,0

Exemplo resolvido: estaca pré-moldada de concreto

Dado: estaca pré-moldada quadrada, seção 30×30 cm, comprimento 12 m, embutida no seguinte perfil estratigráfico (N-SPT por metro):

  • 0–2 m: aterro argiloso, N = 3 e 5 (média 4)
  • 2–6 m: argila siltosa, N = 6, 8, 9, 10 (média 8,25)
  • 6–10 m: silte argiloso, N = 12, 15, 18, 20 (média 16,25)
  • 10–12 m: areia siltosa, N = 22, 28 (média 25) — ponta em 12 m, N na ponta = média de 11 m (22), 12 m (28) e 13 m (35) = 28,3

Dados da estaca:

  • Ap = 0,30 × 0,30 = 0,09 m²
  • U = 4 × 0,30 = 1,20 m
  • Tipo: pré-moldada → F1 = 2,5; F2 = 5,0

Cálculo de Qp (ponta em areia siltosa, K = 800 kPa, Np = 28,3):

Qp = 0,09 × (800 × 28,3) / 2,5 = 0,09 × 22.640 / 2,5 = 0,09 × 9.056 = 814,8 kN ≈ 815 kN

Cálculo de Qs por camada:

  • Aterro argiloso (0–2 m, ΔL=2, K=300, α=0,040, Ni=4): Qs₁ = 1,20 × 2 × (0,040 × 300 × 4) / 5,0 = 2,4 × 48 / 5,0 = 23,0 kN
  • Argila siltosa (2–6 m, ΔL=4, K=400, α=0,033, Ni=8,25): Qs₂ = 1,20 × 4 × (0,033 × 400 × 8,25) / 5,0 = 4,8 × 108,9 / 5,0 = 104,5 kN
  • Silte argiloso (6–10 m, ΔL=4, K=500, α=0,029, Ni=16,25): Qs₃ = 1,20 × 4 × (0,029 × 500 × 16,25) / 5,0 = 4,8 × 235,6 / 5,0 = 226,2 kN
  • Areia siltosa (10–12 m, ΔL=2, K=800, α=0,018, Ni=25): Qs₄ = 1,20 × 2 × (0,018 × 800 × 25) / 5,0 = 2,4 × 360 / 5,0 = 172,8 kN

Qs total = 23,0 + 104,5 + 226,2 + 172,8 = 526,5 kN

Carga admissível total: Qt = 815 + 526,5 = 1.341,5 kN ≈ 1.340 kN

Aoki-Velloso vs. Décourt-Quaresma: quando usar cada um

O Décourt-Quaresma (1978, revisado 1994) é o outro método de previsão de capacidade de carga por SPT amplamente utilizado no Brasil. As diferenças práticas mais relevantes são:

  • Estrutura do cálculo: Décourt-Quaresma usa parâmetros α (ponta) e β (fuste) que variam com o tipo de solo e são independentes do tipo de estaca, aplicando um único fator de segurança global de 2,0. Aoki-Velloso usa K e α que variam com o solo e F1/F2 que variam com o tipo de estaca.
  • Sensibilidade ao tipo de estaca: Aoki-Velloso é mais sensível ao tipo de estaca por diferenciar F1/F2. Para comparar soluções com tipos de estaca diferentes, Aoki-Velloso produz diferenciação mais clara.
  • Resultados em argilas moles: Décourt-Quaresma tende a produzir valores de Qs maiores em argilas, porque seu fator β captura melhor a resistência lateral nesses solos. Em obras com perfil predominantemente argiloso, vale comparar os dois métodos.
  • Recomendação da NBR 6122:2022: A norma não obriga nem proíbe nenhum dos métodos, mas recomenda o uso de pelo menos dois métodos de previsão para comparação, e calibração com prova de carga quando a carga de trabalho for elevada.

Na prática, o uso combinado dos dois métodos — e a adoção da média ou do valor mais conservador — é a abordagem mais segura em projetos sem prova de carga prévia.

Limitações do método

O método Aoki-Velloso produz estimativas confiáveis na maioria dos solos sedimentares brasileiros, mas tem limitações conhecidas:

  • Não é adequado para solos colapsíveis ou expansivos sem calibração local.
  • Em solos com N-SPT > 50 (nega), a extrapolação dos parâmetros pode superestimar a capacidade de ponta.
  • Não substitui a prova de carga estática ou dinâmica em obras críticas (NBR 6122:2022 §8).
  • Os parâmetros K e α foram determinados em solos do interior de São Paulo e sul do Brasil — em solos tropicais laterizados ou coluvionares da Zona da Mata, resultados podem divergir da realidade.

Conclusão

O método Aoki-Velloso é uma ferramenta poderosa e bem calibrada para o dimensionamento de estacas a partir de dados SPT. Dominar suas fórmulas, conhecer os parâmetros tabelados e entender os fatores por tipo de estaca é conhecimento essencial para qualquer engenheiro geotécnico ou projetista de fundações no Brasil. Use a calculadora Aoki-Velloso do Sondar+ para calcular rapidamente sem montar a planilha — e compare com Décourt-Quaresma antes de fechar o projeto.

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