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Programação de Sondagens pela NBR 8036 — Cálculo de Furos e Profundidades

08 de abril de 2026·11 min de leitura

Por que a programação de sondagens importa

A programação de sondagens é o planejamento técnico que define quantos furos de sondagem são necessários, onde locá-los no terreno e até que profundidade cada furo deve avançar. É a etapa mais subestimada de todo o processo de investigação geotécnica — e a que, quando mal executada, gera as consequências mais caras.

Uma campanha de sondagem com furos insuficientes, mal locados ou com profundidade aquém do necessário produz um modelo geotécnico do subsolo incompleto ou incorreto. A consequência pode ser fundações subdimensionadas (risco de recalque excessivo ou colapso), superdimensionadas (custo desnecessário) ou locadas na cota errada (perda da camada resistente entre furos não investigados).

A ABNT NBR 8036:1983 — ainda vigente, embora precise de atualização — estabelece os critérios mínimos que qualquer programação de sondagens deve atender no Brasil. Este guia percorre todos esses critérios com exemplos práticos.

Fundamentos da NBR 8036:1983

A norma estabelece critérios em função de dois parâmetros principais: a área projetada da edificação (em m²) e o tipo de obra. Para edificações convencionais, as regras fundamentais são:

Número mínimo de furos

  • Área projetada ≤ 200 m²: mínimo de 2 furos
  • Área projetada entre 200 e 1.200 m²: 1 furo por cada 200 m² de área projetada, com mínimo de 2 furos
  • Área projetada entre 1.200 e 2.400 m²: 6 furos + 1 furo por cada 400 m² que exceder 1.200 m²
  • Área projetada > 2.400 m²: 9 furos + 1 furo por cada 600 m² que exceder 2.400 m²

Esses são valores mínimos. O engenheiro responsável pode e deve aumentar o número de furos quando o terreno apresenta irregularidades, histórico de problemas geotécnicos na vizinhança, ou quando pilares com cargas muito distintas estão distribuídos de forma não uniforme.

Localização dos furos

A norma não especifica a disposição exata dos furos, mas a prática consolidada é:

  • Um furo em cada canto da edificação (ou próximo a ele).
  • Furos adicionais nos pilares de maior carga.
  • Furos intermediários para caracterizar transições de estratigrafia suspeitas.
  • Nunca todos os furos em linha — a distribuição deve cobrir toda a área projetada.

Critérios de profundidade mínima pela NBR 8036

A profundidade de cada furo deve ser suficiente para caracterizar o subsolo até a camada que servirá de apoio às fundações e além dela. A NBR 8036:1983 estabelece os seguintes critérios de parada (o furo deve ser encerrado quando o primeiro dos critérios for atendido):

  1. Critério de compacidade/consistência: O furo pode ser encerrado quando atingir 3 metros consecutivos com N-SPT ≥ 15 em solo virgem (não perturbado acima pelo furo). Esse critério sinaliza que o solo atingiu resistência suficiente para apoio de fundações rasas ou pontas de estacas.
  2. Critério de alta resistência: O furo pode ser encerrado quando atingir N-SPT ≥ 30 por pelo menos 3 metros consecutivos. Esse critério indica camada densa ou rígida compatível com apoio de fundações profundas.
  3. Impenetrabilidade (nega): Quando o número de golpes ultrapassar 50 antes de atingir 30 cm de penetração, o furo é encerrado por impenetrabilidade, independente da profundidade atingida.
  4. Profundidade máxima especificada: Quando o engenheiro responsável define uma profundidade máxima por razão técnica justificada (ex.: profundidade do subsolo de interesse, limite de capacidade do equipamento).

Importante: a profundidade mínima absoluta não é definida pela NBR 8036 em termos de metros fixos. Uma sondagem que atinge nega a 2,00 m está dentro da norma — mas o engenheiro deve avaliar se esses 2 m caracterizam adequadamente o subsolo para o projeto previsto.

Exemplos práticos de cálculo

Exemplo 1 — Residência unifamiliar (área 180 m²)

Dados: Casa com área projetada de 180 m², 4 pilares de canto e 1 central, sem histórico de problemas geotécnicos na região.

Número de furos pela NBR 8036: Área ≤ 200 m² → mínimo de 2 furos. Recomendação técnica: 3 furos, sendo 2 nos cantos opostos e 1 central ou no pilar de maior carga.

Profundidade mínima: até atingir 3 m consecutivos com N ≥ 15. Em solo típico de zona urbana paulista, isso costuma ocorrer entre 8 e 15 m de profundidade.

Exemplo 2 — Prédio residencial de 8 andares (área 600 m²)

Dados: Edifício com área projetada de 600 m², 20 pilares com cargas entre 800 e 2.500 kN, terreno sem levantamento prévio.

Número de furos pela NBR 8036: 600 m² / 200 m² = 3 furos mínimos. Porém, com pilares de cargas heterogêneas e sem histórico, a recomendação técnica é de pelo menos 5–6 furos: nos 4 cantos da projeção + 1 no centro e/ou no pilar de maior carga.

Profundidade mínima: para edifícios de 8 andares com estacas previstas, é prudente investigar pelo menos até 20–25 m, ou até atingir N ≥ 30 por 3 m consecutivos, o que for mais profundo. Em solos urbanos com estratigrafia variável, profundidades de 15–25 m são comuns para esse porte.

Exemplo 3 — Galpão industrial (área 3.500 m²)

Dados: Galpão com área projetada de 3.500 m², pilares a cada 12 m, cargas de 1.500–4.000 kN por pilar.

Número de furos pela NBR 8036: Para área > 2.400 m²: 9 + (3.500 - 2.400) / 600 = 9 + 1,8 → arredondado para 11 furos mínimos. Recomendação técnica: 12–15 furos, dispostos em malha regular cobrindo a área e com furos adicionais nos pilares de maior carga (4.000 kN).

Profundidade mínima: Para cargas de 4.000 kN por pilar, a cota de apoio das estacas pode estar entre 15 e 30 m dependendo do solo. Cada furo deve avançar pelo menos 5 m além da cota de apoio prevista para garantir a caracterização adequada da camada de suporte.

Situações especiais que exigem programa ampliado

A NBR 8036 define mínimos, não ótimos. Em várias situações, o engenheiro deve ir além do mínimo:

  • Terrenos em encosta ou com variação topográfica: A estratigrafia lateral pode variar muito em terrenos inclinados. Furos nos extremos alto e baixo do terreno são essenciais.
  • Vizinhança com histórico de recalque: Em regiões onde edificações vizinhas apresentaram problemas de recalque ou movimentação, o número de furos deve ser aumentado e a profundidade de investigação ampliada.
  • Solos com suspeita de colapsibilidade ou organicidade: Furos adicionais para coleta de amostras indeformadas destinadas a ensaios de laboratório (odômetro de colapso, ensaio triaxial).
  • Obras em fases: Cada fase de ampliação exige nova campanha de sondagem na área ampliada — sondagens antigas podem não cobrir a nova área nem ser válidas para o novo carregamento.
  • Obras de grande porte com carga assimétrica: Torres, silos, reservatórios elevados — pilares com carga muito superior aos demais precisam de furos dedicados na vizinhança imediata.

Apresentando a programação: o croqui de locação

Toda programação de sondagens deve resultar em um croqui de locação — desenho esquemático que indica a posição de cada furo no terreno em relação a limites, divisas, construções existentes e outros elementos de referência. O croqui deve ter escala indicada, norte magnético ou geográfico, identificação de cada furo (SP-01, SP-02, ...) e cotas de nível quando disponíveis.

O croqui de locação é parte obrigatória do boletim de sondagem Tipo A (NBR 6484:2020 §7.2) e é o documento que vincula os dados de cada furo à sua posição no projeto. Sem ele, o projetista de fundações não consegue correlacionar os perfis de sondagem com os pilares da planta estrutural.

O Sondar+ permite criar o croqui de locação diretamente na plataforma, importar arquivos DXF de plantas existentes ou desenhar interativamente, com exportação integrada ao boletim Tipo A em PDF — eliminando a necessidade de ir ao AutoCAD para essa etapa.

O papel do engenheiro na programação

A NBR 8036 define critérios mínimos objetivos, mas a programação de sondagens é, acima de tudo, um ato de engenharia que exige julgamento. O responsável técnico deve:

  • Consultar históricos geológicos e geotécnicos da região (mapas, laudos de obras vizinhas).
  • Visitar o terreno antes de programar os furos, identificando sinais de problemas (afloramentos, erosão, recalques em construções vizinhas, vegetação indicativa de solo orgânico).
  • Conversar com o projetista de estruturas sobre a distribuição de cargas e o tipo de fundação previsto.
  • Documentar as razões técnicas para qualquer desvio em relação ao mínimo normativo — tanto para mais furos quanto, em casos justificados, para menos.

Conclusão

A programação de sondagens é o investimento mais barato e mais impactante de uma obra de fundações. Seguir os critérios da NBR 8036:1983 é o piso mínimo; bom julgamento de engenharia é o que garante uma campanha realmente representativa do subsolo. Use o Sondar+ para organizar e documentar sua programação de forma integrada com o boletim de sondagem final — do planejamento à entrega do Tipo A em conformidade com a NBR 6484:2020.

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