A programação de sondagens é o planejamento técnico que define quantos furos de sondagem são necessários, onde locá-los no terreno e até que profundidade cada furo deve avançar. É a etapa mais subestimada de todo o processo de investigação geotécnica — e a que, quando mal executada, gera as consequências mais caras.
Uma campanha de sondagem com furos insuficientes, mal locados ou com profundidade aquém do necessário produz um modelo geotécnico do subsolo incompleto ou incorreto. A consequência pode ser fundações subdimensionadas (risco de recalque excessivo ou colapso), superdimensionadas (custo desnecessário) ou locadas na cota errada (perda da camada resistente entre furos não investigados).
A ABNT NBR 8036:1983 — ainda vigente, embora precise de atualização — estabelece os critérios mínimos que qualquer programação de sondagens deve atender no Brasil. Este guia percorre todos esses critérios com exemplos práticos.
A norma estabelece critérios em função de dois parâmetros principais: a área projetada da edificação (em m²) e o tipo de obra. Para edificações convencionais, as regras fundamentais são:
Esses são valores mínimos. O engenheiro responsável pode e deve aumentar o número de furos quando o terreno apresenta irregularidades, histórico de problemas geotécnicos na vizinhança, ou quando pilares com cargas muito distintas estão distribuídos de forma não uniforme.
A norma não especifica a disposição exata dos furos, mas a prática consolidada é:
A profundidade de cada furo deve ser suficiente para caracterizar o subsolo até a camada que servirá de apoio às fundações e além dela. A NBR 8036:1983 estabelece os seguintes critérios de parada (o furo deve ser encerrado quando o primeiro dos critérios for atendido):
Importante: a profundidade mínima absoluta não é definida pela NBR 8036 em termos de metros fixos. Uma sondagem que atinge nega a 2,00 m está dentro da norma — mas o engenheiro deve avaliar se esses 2 m caracterizam adequadamente o subsolo para o projeto previsto.
Dados: Casa com área projetada de 180 m², 4 pilares de canto e 1 central, sem histórico de problemas geotécnicos na região.
Número de furos pela NBR 8036: Área ≤ 200 m² → mínimo de 2 furos. Recomendação técnica: 3 furos, sendo 2 nos cantos opostos e 1 central ou no pilar de maior carga.
Profundidade mínima: até atingir 3 m consecutivos com N ≥ 15. Em solo típico de zona urbana paulista, isso costuma ocorrer entre 8 e 15 m de profundidade.
Dados: Edifício com área projetada de 600 m², 20 pilares com cargas entre 800 e 2.500 kN, terreno sem levantamento prévio.
Número de furos pela NBR 8036: 600 m² / 200 m² = 3 furos mínimos. Porém, com pilares de cargas heterogêneas e sem histórico, a recomendação técnica é de pelo menos 5–6 furos: nos 4 cantos da projeção + 1 no centro e/ou no pilar de maior carga.
Profundidade mínima: para edifícios de 8 andares com estacas previstas, é prudente investigar pelo menos até 20–25 m, ou até atingir N ≥ 30 por 3 m consecutivos, o que for mais profundo. Em solos urbanos com estratigrafia variável, profundidades de 15–25 m são comuns para esse porte.
Dados: Galpão com área projetada de 3.500 m², pilares a cada 12 m, cargas de 1.500–4.000 kN por pilar.
Número de furos pela NBR 8036: Para área > 2.400 m²: 9 + (3.500 - 2.400) / 600 = 9 + 1,8 → arredondado para 11 furos mínimos. Recomendação técnica: 12–15 furos, dispostos em malha regular cobrindo a área e com furos adicionais nos pilares de maior carga (4.000 kN).
Profundidade mínima: Para cargas de 4.000 kN por pilar, a cota de apoio das estacas pode estar entre 15 e 30 m dependendo do solo. Cada furo deve avançar pelo menos 5 m além da cota de apoio prevista para garantir a caracterização adequada da camada de suporte.
A NBR 8036 define mínimos, não ótimos. Em várias situações, o engenheiro deve ir além do mínimo:
Toda programação de sondagens deve resultar em um croqui de locação — desenho esquemático que indica a posição de cada furo no terreno em relação a limites, divisas, construções existentes e outros elementos de referência. O croqui deve ter escala indicada, norte magnético ou geográfico, identificação de cada furo (SP-01, SP-02, ...) e cotas de nível quando disponíveis.
O croqui de locação é parte obrigatória do boletim de sondagem Tipo A (NBR 6484:2020 §7.2) e é o documento que vincula os dados de cada furo à sua posição no projeto. Sem ele, o projetista de fundações não consegue correlacionar os perfis de sondagem com os pilares da planta estrutural.
O Sondar+ permite criar o croqui de locação diretamente na plataforma, importar arquivos DXF de plantas existentes ou desenhar interativamente, com exportação integrada ao boletim Tipo A em PDF — eliminando a necessidade de ir ao AutoCAD para essa etapa.
A NBR 8036 define critérios mínimos objetivos, mas a programação de sondagens é, acima de tudo, um ato de engenharia que exige julgamento. O responsável técnico deve:
A programação de sondagens é o investimento mais barato e mais impactante de uma obra de fundações. Seguir os critérios da NBR 8036:1983 é o piso mínimo; bom julgamento de engenharia é o que garante uma campanha realmente representativa do subsolo. Use o Sondar+ para organizar e documentar sua programação de forma integrada com o boletim de sondagem final — do planejamento à entrega do Tipo A em conformidade com a NBR 6484:2020.
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