Todo engenheiro civil sabe que o N-SPT é "o número de golpes para cravar 30 cm". Mas a maioria das interpretações incorretas de laudos de sondagem começa exatamente aqui, na aparente simplicidade dessa definição. Para interpretar o N-SPT corretamente, é necessário entender o que exatamente está sendo medido — e o que não está.
O N-SPT é o número de golpes do martelo padrão (65 kg, queda livre de 75 cm) necessário para cravar o amostrador bipartido (split spoon) nos 30 cm finais de uma série de três cravações de 15 cm. Os primeiros 15 cm (chamados de "assentamento") são descartados porque o solo na base do furo foi perturbado pela perfuração e lavagem. Os golpes das segunda e terceira cravações formam o N-SPT registrado.
O N-SPT é, portanto, um índice de resistência à penetração dinâmica, não um parâmetro de resistência ao cisalhamento diretamente mensurável. Ele mistura, em um único número, efeitos de atrito lateral no amostrador, resistência de ponta na sapata e, em menor grau, perturbação causada pela cravação. Isso não o torna menos útil — ao contrário, décadas de correlações empíricas validadas em solos brasileiros tornam o N-SPT extremamente informativo. Mas é preciso saber suas limitações.
Antes de interpretar qualquer valor de N-SPT, o profissional deve considerar as fontes de variação que podem fazer dois ensaios no mesmo solo produzirem resultados diferentes:
O N60 é o N-SPT corrigido para corresponder a uma eficiência de transferência de energia de 60% em relação à energia potencial nominal do martelo. A fórmula é simples:
N60 = N-SPT × (ER / 60)
Onde ER é a eficiência real medida no canteiro (em %). A correção surgiu da constatação, por Seed et al. (1985) e Skempton (1986), de que diferentes sistemas de percussão (corda-catracão, donut, safety hammer) produzem energias muito distintas, tornando comparações diretas de N-SPT entre campanhas e países inconsistentes.
Por que 60%? Porque é aproximadamente a mediana das eficiências observadas em equipamentos norte-americanos na época em que as principais correlações empíricas foram desenvolvidas. Ao normalizar para 60%, garante-se que N60 é comparável entre equipamentos e países — condição necessária para aplicar correlações internacionais (como as de Robertson & Wride para liquefação).
No Brasil, a prática tradicional usa o N-SPT bruto, e os métodos Aoki-Velloso e Décourt-Quaresma foram calibrados com N-SPT bruto de equipamentos brasileiros corda-catracão (ER ≈ 60%). Para projetos nacionais usando esses métodos, o N-SPT bruto é geralmente adequado. Para análises de liquefação ou uso de correlações internacionais, o N60 — e idealmente o (N1)60, com correção de sobrecarga — é obrigatório.
A tabela a seguir sistematiza valores típicos de N-SPT para os principais tipos de solo encontrados em diferentes regiões do Brasil. Esses valores são orientativos — a variabilidade local pode ser significativa:
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O N-SPT é um índice poderoso e bem validado para solos brasileiros, mas sua interpretação correta exige conhecimento das suas limitações, das fontes de variação e dos valores típicos esperados para cada tipo de solo. O N60 é o passo natural para projetos de maior porte ou quando equipamentos diferentes são comparados. Dominar esses conceitos é o que separa um laudo de sondagem bem interpretado de um mal aproveitado.
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