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SPT vs SPT-T: Quando Usar Cada Método

28 de março de 2026·9 min de leitura

SPT e SPT-T: o que os diferencia

O SPT-T não é um ensaio diferente do SPT — é o mesmo ensaio padrão de percussão com uma etapa adicional ao final de cada metro: a medição do torque no amostrador. Após completar as três cravações de 15 cm e registrar o N-SPT, o operador acopla um torquímetro ao topo da haste e gira lentamente o amostrador, medindo o momento resistente máximo (Tmáx) e, em alguns casos, o torque após o pico (Tres).

Do ponto de vista operacional, o SPT-T exige apenas a adição do torquímetro ao equipamento convencional e um tempo adicional de 2–5 minutos por metro. O custo marginal é baixo — geralmente 10–20% sobre o custo do SPT padrão. Do ponto de vista dos dados obtidos, porém, a adição é significativa: o torque captura informações sobre a resistência ao cisalhamento lateral do solo que o N-SPT puro não consegue isolar.

A ABNT NBR 6484:2020 formalizou o SPT-T como ensaio complementar normalizado em seu §8, com procedimento padronizado de execução, calibração do torquímetro e registro dos resultados no boletim. Esse passo normativo foi importante para que os resultados de SPT-T de diferentes laboratórios e obras possam ser comparados de forma confiável.

Por que o torque adiciona informação que o N-SPT não tem

O N-SPT mistura, em um único número, a resistência de ponta da sapata do amostrador e o atrito ao longo de seu fuste. Em solos com componente argilosa, a contribuição relativa de cada parcela varia com a plasticidade, a pressão de confinamento e o grau de cimentação — fatores que o N-SPT não consegue distinguir.

O torque Tmáx, por sua vez, é mobilizado essencialmente pelo cisalhamento lateral ao longo do cilindro do amostrador. Ao combinar N-SPT (que reflete ponta + lateral) com Tmáx (que reflete predominantemente lateral), é possível estimar com mais precisão a contribuição relativa de resistência de ponta e lateral — exatamente o que se precisa para dimensionar estacas com realismo.

Décourt & Quaresma (1996) demonstraram, com base em banco de dados de provas de carga, que o uso de Tmáx na estimativa de resistência lateral (Qs) produz correlações mais ajustadas que o N-SPT puro, especialmente em solos tropicais com cimentação reliquiar (saprolitos) e em solos com variação lateral de argila e areia.

Quando usar SPT (sem torque) é suficiente

O SPT padrão — sem medição de torque — é suficiente para a maioria das situações em obras residenciais e comerciais de pequeno a médio porte no Brasil, especialmente quando:

  • O perfil geotécnico é relativamente homogêneo e bem caracterizado por sondagens anteriores na região.
  • A fundação prevista é do tipo raso (sapatas, radiers) e não há necessidade de cálculo detalhado de Qs e Qp separadamente.
  • Estacas de pequeno diâmetro (< 25 cm) em solos com estratigrafia clara, onde o método de Aoki-Velloso com N-SPT já produz estimativas conservadoramente aceitáveis.
  • A obra é de baixo risco geotécnico (carga por pilar < 500 kN, fundações em argila rija conhecida).

Quando o SPT-T é necessário ou fortemente recomendado

O SPT-T deve ser solicitado sempre que a acurácia no cálculo de capacidade de carga de estacas for relevante para a segurança ou a economia da obra. Os cenários mais comuns:

1. Dimensionamento de estacas de médio e grande porte

Em edificações com pilares carregados (carga por pilar > 1.000 kN) ou em obras de infraestrutura (pontes, silos, galpões industriais), o dimensionamento pelo método de Aoki-Velloso com N-SPT + torque produz estimativas de Qs significativamente mais precisas do que com N-SPT bruto. A precisão adicional pode representar redução do comprimento das estacas ou aumento da capacidade admissível — impacto econômico relevante.

2. Solos tropicais laterizados e saprolíticos

Em solos residuais de rocha cristalina (granito, gnaisse, xisto) do Planalto Atlântico e do interior do Brasil, a cimentação reliquiar infla o N-SPT sem corresponder ao mesmo nível de atrito lateral mobilizável em estaca. O torque captura essa distinção melhor que o N-SPT puro. Para saprolitos, a relação Tmáx/N é tipicamente mais alta do que em sedimentos, indicando maior potencial de atrito lateral por golpe.

3. Perfis com alternância de camadas argilosas e arenosas

Em perfis heterogêneos onde o N-SPT sobe e desce entre camadas de areia e argila, o torque permite identificar com mais precisão quais camadas contribuem efetivamente para Qs e quais são apenas "resistência de ponta temporária".

4. Projetos com prova de carga prevista

Quando há prova de carga estática prevista pela NBR 6122:2022, os dados de torque do SPT-T permitem uma previsão mais acurada da curva carga × recalque antes da prova, facilitando o planejamento do ensaio (carga máxima, ciclos de carregamento, instrumentação).

5. Análise de estabilidade em argilas sensíveis

Em taludes, escavações e aterros sobre argilas moles, a relação Tres/Tmáx — razão entre torque residual e máximo — fornece informação sobre a sensibilidade do solo e a resistência pós-ruptura, útil na análise de progressão de ruptura.

Como o Tmáx entra no método Aoki-Velloso com SPT-T

A formulação de Aoki-Velloso modificada com SPT-T (conforme proposta por Décourt & Quaresma, 1996, e adotada por vários autores brasileiros) ajusta o coeficiente de atrito lateral α em função da relação T/N, onde T é o torque médio na camada e N é o N-SPT médio da mesma camada. Quando T/N é alto (solo com mais coesão que atrito), o coeficiente de atrito lateral é ajustado para cima; quando T/N é baixo (solo predominantemente granular), o ajuste é menor.

Essa correção é aplicável camada a camada, permitindo um modelo de distribuição de Qs ao longo do fuste muito mais refinado do que o método com N-SPT puro, onde todos os solos com o mesmo N-SPT recebem o mesmo fs, independente de serem argila ou areia.

O Sondar+ suporta o lançamento dos dados de SPT-T (Tmáx e Tres por metro) no boletim de sondagem, com apresentação gráfica padronizada pela NBR 6484:2020, e disponibiliza o cálculo de capacidade de carga de estacas integrando esses dados ao perfil de N-SPT.

Conclusão: use SPT-T quando o investimento em precisão é justificado

O SPT-T custa marginalmente mais do que o SPT padrão, mas os dados que fornece podem economizar muito no dimensionamento de fundações ou aumentar a segurança em projetos onde o N-SPT puro seria insuficiente. A regra prática: em qualquer obra com estacas de médio e grande porte, com solos tropicais residuais ou com perfil estratigráfico irregular, solicite SPT-T desde a programação da sondagem — retroativamente não há como obtê-lo sem nova campanha.

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